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Francisco Miguel de Moura – membro da Academia Piauiense de Letras

Na minha vivência com livros, tenho notado o desprezo que a crítica dispensa à primeira obra do autor (à chamada estréia), tal como tem preconceito pelo lugar do nascimento do poeta, o endereço do poeta. Se nasce ou mora no Piauí ou em Sergipe, por exemplo, sequer se dispõe a dar uma olhada num poema, desprezando até as orelhas.  Não sou crítico de profissão, sou poeta. Aquele – ganha alguma coisa dos jornais, revistas, enciclopédias, etc.; este – ganha o pão de cada dia (o diabo não amassa pão para ninguém), noutra profissão. 
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Carmen Sílvia Presotto, autora do livro sob comento, nasceu em Sarandi/RS, em 27-8-1957; é professora graduada em Línguas Portuguesa e Clássicas, pelo Instituto de Letras da UFRGS; publicou antes, em várias coletâneas e, em 2001, o livro “Dobras do tempo”, que me enviou, junto com dois outros, “Encaixes”(2006), e Postigos (2010), ambos de agradável leitura.
Ela não é nenhuma desconhecida, pois constrói e mantém, em conjunto com outros, o site “Vidráguas”, na internete, onde movimenta a poesia, a crônica e a crítica, com seriedade e bom humor. Foi a partir de um lugar chamado “Facebook”, há já algum tempo, que passamos a ser conhecidos e amigos. Por isto, eu talvez fosse suspeito para fazer uma crítica a seus livros. 
Não tendo como escrever sobre os três recebidos, escolhi “Dobras do Tempo”, pelas razões já expostas e porque me parece singularíssimo, de uma poesia pura, limpa, forte e profunda. 
De algumas anotações de leituras, me apraz transcrever este trecho de sua obra: “Fechei os livros, mas continuam as minhas leituras. Leio nuvens rabiscando céus, pássaros desenhando o horizonte, árvores dançando com o vento. Leio uma mistura de gente, piscar de olhos. Leio loiros, ruivos, morenos, homens, mulheres. (…) Encontro nas entrelinhas um espelho, o qual me escancara sua campainha presa na garganta. (…) Lerei meu mapa astral, meu mapa genético, outros me lerão enquanto um ‘eu’ teimoso ainda se esconde de mim.” (Uma porta se abre, p.20).  
Quantas portas não se me abriram à leitura de seus poemas/crônicas (que também eles são muito ligados ao lirismo da prosa moderna)? Portas de pensamentos e sensações pessoais tocados e transluzidos. Que simplicidade, que beleza, que cheiro de verde, flor, nuvem e pássaros voantes que se encontram nas “Dobras!…” Seu tempo é uno e ilimitado, as dobras são muitas e vário, tão vário, é seu alto caminhar, pensar e escrever. Beleza e arte não lhe faltam. Grandeza de espírito, também não. Já cheguei a afirmar, num dos meus escritos, que “não acredito em poetas maus, nem em maus poetas”. Os poetas são simples, generosos, humanos e por vezes ingênuos – esta é a verdadeira natureza do poeta e da poesia. E se há poetas maus, assassinos, vilões, ladrões de corpo e alma, enfim criaturas que, na verdade, não possuem a chama dos bons sentimentos (como os psicopatas, por culpa de quem quer que seja, não importa), quando aparecem como poetas, na verdade são embusteiros, vilões, e logo-logo se descobrem por si mesmos.
Antes de terminar, não devo esquecer uma passagem em que a personagem/autora, assistindo a uma missa, revela várias dobras do nosso tempo, do nosso mundo: “Sinto minha fé reformada. Foi-se o ranço e a falsa luz das velhas manhãs domingueiras. Foi-se o pecado, levando junto a incerteza do risco de não viver para sempre no sacrossanto-paraíso. Cresci, caíram totens e tabus, mas a religião de sentir vida nos outros ainda me traz o brilho do sol e a esperança do lugar mágico. Refúgio onde a amizade corre solta, o verde transfunde pessoas em humanidade e o diálogo soe natural… Lugar onde chorar seja quase um pecado e sorrisos escancarados sejam os únicos dízimos aceitáveis” (“A missa dos encontros” p.29). 
Mas, leitores, não deixem escapar a crônica “Tempo de recreio” (p.35), especialmente. Não deixem de ler o livro todo, quero dizer, também a segunda parte (os poemas): – A partir da p.53, começam as peças mais caracteristicamente poéticas: O poema “Tempo esgotado” excele:
  
“Agitados abanos / lembram os laços da trança menina e / a expectativa da vida não preenchida. // Sorrisos de lazer / brindam um novo ócio. // Até um dobrar de esquina // sentir um parar perdido e // esquecer do caminho. // Desaposento-me… // Suspiro ao vento pelo primeiro dia”. 
Outros merecem a mesma qualificação de excelência: “Fardos da memória” e “Fios retorcidos” (“Se escrevo, é para um dia renascer”); “Mulher de areia” (“O muro dos ventos abarca meus sonhos”); e, em “Liberdades decrescidas” – uma valiosa definição de infância: “Infância: perdas entre caminhos, flores nos albergues do tempo, néctar da vida…”
Sílvia Presotto, poeta de alto estilo, representa a melhor poesia dos nossos brasis! – este é o meu arremate.

Artigo por: FRANCISCO MIGUEL DE MOURA

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